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“É fundamental que a Estratégia Água que Une passe à prática”

O presidente do COTR – Centro de Competências para o Regadio Nacional, Gonçalo Morais Tristão, defende que chegou o momento de transformar a Estratégia “Água que Une” em resultados concretos no terreno. Em entrevista à Voz do Campo, durante o XI Congresso Nacional de Rega e Drenagem, a decorrer em Beja, aponta como prioridades a modernização dos regadios, o reforço da capacidade de armazenamento, a continuidade das medidas de uso eficiente da água e uma maior proximidade do COTR aos agricultores de todo o país.

A água está definitivamente no centro das decisões sobre o futuro da agricultura portuguesa. Foi precisamente essa reflexão que levou a Beja agricultores, técnicos, investigadores, empresas e decisores políticos para o XI Congresso Nacional de Rega e Drenagem, promovido pelo COTR.

Sob o mote “Água para Produzir o Futuro: Resiliência, Eficiência e Inteligência nos Recursos Hídricos”, o congresso colocou em discussão alguns dos temas que marcarão a agricultura portuguesa nos próximos anos: disponibilidade de água, eficiência da rega, armazenamento, modernização das infraestruturas, digitalização e execução da Estratégia “Água que Une”.

À margem do congresso, a Voz do Campo entrevistou Gonçalo Morais Tristão, presidente do COTR, para perceber as prioridades do setor e o trabalho que aquela entidade pretende desenvolver nos próximos anos.


Este Congresso coloca em discussão temas particularmente atuais. Que importância assume esta reflexão num momento em que a gestão da água está no centro das preocupações do setor?

Esse é precisamente o propósito. São temas muito atuais e é importante refletirmos sobre eles. Temos aqui responsáveis políticos, técnicos e pessoas que trabalham e pensam regularmente estas matérias.

A implementação da Estratégia “Água que Une” é claramente um dos grandes temas que estão hoje em cima da mesa.

Não diria que toda a água ou toda a agricultura portuguesa dependem exclusivamente desta estratégia, mas a sua implementação será muito importante para percebermos como vamos gerir a água nos próximos anos.

Muitas vezes dizemos que o problema não é simplesmente não existir água. Há também questões relacionadas com a forma como ela é gerida e distribuída. Portanto, a gestão do recurso é absolutamente fundamental.

Ao mesmo tempo, temos naturalmente as alterações climáticas, que aumentam a preocupação relativamente a períodos em que a água poderá faltar e a situações de seca eventualmente mais prolongadas.

Por isso, aquilo que queremos agora é, sobretudo, ver a estratégia passar à prática e produzir consequências concretas no terreno.


Que resultados concretos gostaria o COTR de começar a ver dessa implementação?

Ao nível da agricultura, há duas dimensões fundamentais.

Por um lado, continuar a melhorar o uso eficiente da água, nomeadamente na forma como os agricultores utilizam a água na rega das suas culturas.

Por outro, temos a questão da oferta e da disponibilidade de água: precisamos de mais capacidade de armazenamento e também de maior eficiência na distribuição.

Existem infraestruturas que necessitam de reparação, remodelação e reabilitação. Portanto, para nós, é fundamental que a Estratégia “Água que Une” seja efetivamente executada.

Não chega termos a estratégia no papel. É necessário conseguir perceber depois os seus resultados no terreno.


O Congresso apresenta também o Barómetro Nacional do Uso Eficiente da Água na Agricultura. O que representa este instrumento?

O Barómetro é, digamos, um braço de algo maior, que é o Observatório do Regadio.

Barómetro Nacional do Uso Eficiente da Água na Agricultura foi apresentado durante o encontro pela Consulai

O Observatório resulta de um trabalho desenvolvido pela FENAREG e pelo COTR, com o apoio técnico da CONSULAI, e tem como objetivo disponibilizar informação sobre o regadio e sobre a agricultura.

Estamos a falar de números que já existem. Não são números fabricados pelo COTR ou pela FENAREG. São dados existentes em diferentes organismos oficiais, como o Instituto Nacional de Estatística, o IFAP ou a DGADR.

Aquilo que pretendemos é, no fundo, retirar esses dados das várias “gavetas” onde estão dispersos e disponibilizá-los de forma acessível a quem os queira consultar.

Queremos que estejam disponíveis para a sociedade, para os jornalistas, para os investigadores, para a academia e também para quem toma decisões.

É igualmente uma forma de demonstrar que existem dados sobre a atividade agrícola e sobre o regadio em Portugal.


E o que acrescenta especificamente este Barómetro?

Neste caso vamos retirar desse universo de informação os dados especificamente relacionados com o uso eficiente da água na agricultura.

Temos uma medida de uso eficiente da água desde 2015 e aquilo que pretendemos analisar é a sua evolução ao longo destes anos: perceber quais foram os resultados alcançados, aquilo que funcionou e também aquilo que entendemos que deverá acontecer no futuro.

É um instrumento importante porque nos permite deixar de discutir apenas perceções e passar a olhar para os números e para a evolução efetiva do setor.


Uma das questões centrais é precisamente a continuidade das medidas de apoio ao uso eficiente da água. O que considera prioritário nesta matéria?

Tivemos aqui, durante o Congresso, um sinal que consideramos positivo.

Da intervenção do senhor Ministro da Agricultura e Mar, a indicação que retirámos é que a medida de uso eficiente da água terá continuidade no próximo quadro comunitário.

Para nós isso é muito importante.

A medida começou em 2015 e, posteriormente, ganhou uma expressão bastante maior. A área abrangida aumentou significativamente, o que demonstra que existe adesão do setor.

Aquilo que pretendemos agora é que, no próximo quadro, esta medida seja ainda mais disseminada no território nacional.


Isso implica chegar também às explorações de menor dimensão?

Precisamente.

Até agora, pelas suas características, esta medida tem sido mais facilmente aplicada em explorações e parcelas de maior dimensão e teve também uma expressão particularmente relevante a sul do Tejo.

É importante que consigamos generalizá-la e torná-la acessível às pequenas explorações e às pequenas parcelas.

Para uma pequena área, algumas das exigências atuais podem tornar a medida demasiado complexa.

Por isso defendemos que, no futuro, exista uma simplificação adaptada a estas explorações, permitindo que mais agricultores possam aderir.

Se queremos aumentar verdadeiramente a eficiência da utilização da água a nível nacional, temos de conseguir envolver também esta realidade agrícola.


Ao nível das infraestruturas, onde estão as maiores necessidades?

Temos vários aproveitamentos hidroagrícolas antigos, alguns construídos nas décadas de 60 e 70 do século passado, que precisam claramente de ser reabilitados.

Falamos de infraestruturas que necessitam de modernização para reduzir as perdas de água que ainda ocorrem nos sistemas de transporte e distribuição.

É fundamental existir financiamento para a reabilitação e modernização desses perímetros de rega.

Depois temos outra dimensão igualmente importante: a capacidade de armazenamento.

A Estratégia “Água que Une” identifica novas infraestruturas e algumas barragens que consideramos importantes para conseguirmos aumentar a capacidade de reserva de água.

Precisamos de ter capacidade para guardar água nos períodos em que ela existe e utilizá-la quando ela faz falta, sobretudo em anos mais secos.


Estamos praticamente no último trimestre do ano. Que balanço faz do trabalho desenvolvido pelo COTR?

A missão do COTR mantém-se desde a sua criação, em 1999: transmitir conhecimento ao setor agrícola relativamente à utilização da água na rega.

Penso que temos conseguido cumprir essa missão.

Temos, por exemplo, um papel muito importante na implementação da medida de uso eficiente da água e acompanhamos diretamente uma parcela bastante relevante da área abrangida.

Falamos de aproximadamente 30 a 35 mil hectares acompanhados pelo COTR, dentro de um universo que supera os 118 mil hectares abrangidos pela medida.

Essa área tem vindo a aumentar, o que significa também que existe reconhecimento do trabalho desenvolvido.

Mas há ainda muito para fazer.


E como perspetiva o futuro do COTR?

Vejo o COTR com imenso trabalho pela frente.

Temos de continuar a nossa missão de ajudar o agricultor onde ele efetivamente precisa desse apoio.

E é exatamente por isso que existe também uma intenção da atual direção de aproximar fisicamente o COTR de outras regiões agrícolas.

O COTR está sediado em Beja e continuará sediado em Beja. Isso não está em causa.

Mas gostaríamos que, mais ano menos ano, pudéssemos ter presença também no Centro e no Norte do país, aproximando os nossos serviços de outras agriculturas.

Existem agricultores nessas regiões que precisam igualmente — e em alguns casos talvez ainda mais — do apoio técnico e do conhecimento que uma entidade como o COTR pode disponibilizar.

Queremos estar mais próximos do agricultor.


Para terminar, que conselho deixaria hoje a um agricultor que queira melhorar a eficiência da água na sua exploração?

Há um conselho muito simples que os nossos técnicos dão frequentemente aos agricultores com quem trabalham.

Naturalmente que é importante utilizar melhor a água e ajustar corretamente a rega às necessidades das culturas. Mas existe um pormenor que às vezes é esquecido: auditar regularmente os sistemas de rega.

Mesmo um sistema relativamente novo e que aparentemente está a funcionar bem pode não estar a trabalhar com a eficiência que pensamos.

Por isso, é importante que os sistemas sejam avaliados regularmente, de dois em dois ou de três em três anos, por exemplo.

Só dessa forma conseguimos ter a certeza de que estão efetivamente a funcionar de forma eficiente.

É um conselho que os técnicos do COTR dão constantemente aos agricultores e que aproveito também para deixar: não basta instalar um bom sistema de rega; é necessário verificar ao longo do tempo se continua a regar bem.


«Queremos estar mais próximos de outra agricultura que também precisa do COTR»

Além da execução da Estratégia “Água que Une”, Gonçalo Morais Tristão identifica assim uma segunda dimensão para os próximos anos: alargar a presença e a proximidade territorial do COTR.

Uma estratégia que pretende levar conhecimento técnico sobre rega, eficiência hídrica e gestão da água para além da sua tradicional base no Alentejo e reforçar o acompanhamento dos agricultores também no Centro e Norte do país.

Num contexto em que a disponibilidade e a gestão da água assumem um peso crescente na competitividade agrícola, a mensagem deixada pelo presidente do COTR é clara: a eficiência continuará a ser indispensável, mas terá de ser acompanhada por investimento nas infraestruturas, maior capacidade de armazenamento e execução efetiva das medidas já previstas para o setor.

A Voz do Campo está a acompanhar o XI Congresso Nacional de Rega e Drenagem. Não perca os próximos desenvolvimentos e todas as novidades deste Congresso.

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